quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Teclado

Escrevendo, mais ainda me deparo
Sem acentuar nem til nem agudo
Sem mesmo negar, ou mesmo cedilhar
Com acentos podados ao talo pelos dentes ansiosos
Coitados dos dedos acentuados, coitados...

Acentos mastigados, dilacerados
Na poesia fugidia sem escapar da forma
Nem vista nem delineada por qualquer
Aquarelista escritor das cores sem som
Assim seguimos a vida... assim...

O que pode haver de errado no dito?
Nem quero mais interrogar o nada
Ignorarei o pontuar textual excessivamente

Quem sabe assim termine o laborioso dizer
O abstrato desmundo das palavras...

Inventemos agora um silenciador para o silencio.

Rodrigo Barbosa Silva

sábado, 27 de novembro de 2010

Abrupto silêncio

E de repente repetiu-se a sina do silente

Calado ao som do caldo de galinha...

Borbulhante esperança faminta da gente

Que quer mais que mera boquinha


Vazio, vazio, vazio desesperador

E a guerra continua, e o poder, onde?

Relativo é tal sinal perante a dor

De quem perde seu porto seguro ou sua ponte


Em meio a tantos gritos surge o alívio

O mais falso de todos, assaz restante

Sobrador que assopra o vento imaginário

Que sobrou ontem quando tinha Sol


O medo afirma nossa nova paranóia

A mais real de todas, mais presente

Que o próprio presente não dado

Aos sedentos por fome satisfeita


À mesa estão os maratonistas corredores

Da diária luta por sobrevivência neste “nada

Tem sentido” o calor mais coadjuvante

Deste frio que impera nos maiores corações?


Matem, matem, matem aquilo que não existe

Para ver se o que se insiste se consiga sem saber

Mesmo que a concessão seja mais que mentir

Mesmo que a vida nos ensine a sorrir sem sonhar


Além disso a coitada criança cresce sem saber

Que cresce sem saber na sabedoria popular

Mais impopular que tudo que se possa imaginar


Mal sabe tal infante que o tempo ainda nem chegou

E o mais abrupto silêncio hoje grita em cada esquina

Sabe nem do passo mal andado que a luz não ilumina

Nem da fronte guerrilheira que agoniza por um quê

Sem um quê nem por quê num objetivo sem palavras...


Quem sabe a respiração possa ser o alento do jogado

Pelos cantos mais cansados das vielas desnortistas

Quem sabe a linguagem invisível possa ser a fuga

Daquele que não foge por não ter onde fugir

Que a vida nos conte um dia como se faz para falar.


Rodrigo Barbosa Silva

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Poema-curto

Será?
Será que será?
Será que será que será?
Será que será que será que será?
Apenas um motivo para ser?

O que é sempre sendo nunca
por nunca ter sido sempre?
O que é que é que é que é que é?
Apenas um motivo para ser?

Pedir isto seria demais
Por isso a pergunta:
Quem que quem que quem?
Que se fez assim
Apenas um motivo para ser?

Como o poema está em curto
É curto
E
E esta estrofe também
Acabo por aqui.

Rodrigo Barbosa Silva

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O vento

O vento sopra onde quer
Não se sabe de onde vem
Nem pra onde vai voar
Só sei que ele sopra e sopra

Profundo e silente navegador
Desenhado nas mais belas linhas
Do absurdo imaginável, iletrável
Perpetrado ao mais distantes ares

Discrepância suave e singela
É o sem-cor mais colorido de todos
Só pra aparecer a cor da amarela
Luz do Sol inebriante e calórico

Se esse fosse um vento que só se respira
Essa frase não seria longa nem curta
Seria só frase, como é a vida: uma frase.

Há um longo ponto reticente nessa ventania
Não é o bastante pra falar por um dia
O que quer dizer esta poesia
Que se amiúda a passos lentos
Despercebida e sem rima forte
Como aquele vento do norte de ontem
Pequena força aparente num único vento
Ahh, se soubessem que o vento faz mais que soprar
A frase acabaria neste instante por não mais "ventar"...

Rodrigo Barbosa Silva

sábado, 9 de outubro de 2010

Programando o silêncio

O que se pode quebrar com uma simples palavra?
Não há resposta que possa ser dita ou pensada
Só o silêncio diz e o seu dito é misterioso e selado
Que aluno gostaria de escrever suas linhas assadas?

Isso mesmo! Churrasquinho de letras e linhas...
Festas, músicas, gritos, bebedeiras poemáticas...
Embriagues abismática, gente doida endoidecendo
Risos, choros, ranger de dentes, frio, calor e rimas

Ante a tudo isso o escultor desenha seus códigos
Musas eternas e caladas são descobertas sensuais
Enquanto muitos querem dizer seus cantos pródigos
Há outros escondidos em suas palavras torpes

"Sem" dizer nada ele [o silêncio] grita surdo:
"Nada! Nada! Nada! Nada! Nada! Nada! Nada!"
Como? Pode ser tão abusado e perturbador?
O escultor quer falar, mas sem culpa não diz:
Nada! Nada! Nada! Nada! Nada! Nada! Nada!

Neste âmago do desespero desperta o poeta
Poente súbito de ideias nascentes e veladas
Ao mais fundo abismo revelador do absurdo
Num sem fim fantasma felino, fugaz e funesto.
E mesmo assim emergir na vitalícia construção
Que esculpe o sem sentido mais sentido do mundo

Só por sentir em exagero
Só por falar com teimosia
Só por calar o desespero
Só por viver apesar de tudo
Só por ser parte da poesia.

Rodrigo Barbosa Silva