sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Verborragia para quem gosta de lobos

Um morro uiva com seus ventos
O lobo venta com seu canto
À caça de uma ovelha perdida
Ou de uma velha pedida: comida

Qualquer coisa serve, está difícil comer
Simplesmente a caça corre,
ou pára, inútil, no espaço vazio
da mesma história contada todo dia

O tempo passa como o vento, misterioso,
Não sabemos de onde vem, nem o posterior
Pois o calor anuncia só a chuva, nada mais

O mafioso conta vantagem de sua riquesa
Mas esquece que o pastor espreita
E que é ovelha diante das interpélies.

Rodrigo Barbosa Silva

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Estou

Buscando alguma existência
Longe de sua verdadeira,
E factível inefavelmente, presença

Lá estava alguém que tentou falar
Não sabendo calar nem dizer
Apenas tentando viver seu silêncio

Talvez a ouvir um jazz que não vejo
Por ser lógico que se ouve algo tão invisível
Aí estava a certeza do que se buscava

Em algo que simplesmente escuta
E não se vê, por mais que queiramos
Assim, ainda na errância, caminhando estou

Rodrigo Barbosa Silva

Comendador Soares

O lugar de onde sou não é mítico...
É... em algum lugar da Baixada
Num Fluminense não futebolístico
Lá onde o Japeri faz sua parada

Aquele trem - ou lata de sardinhas? -
Tem muitas histórias e pátrias gentis
Em meio a tanto aperto literal fora da linha
Da imaginação do real elenco que ninguém diz

Ninguém diz quem é... São meros passantes?
Mas o que importa é que sou de Comendador
Ou não? Pois quem sabe o que é tal lugar?

É mais fácil lembrar que chegamos lá de trem
O nosso querido latão, geladinho, coreano,
Forno, navio proletário; não importa, gosto de lá.

Rodrigo Barbosa Silva

Teclado

Escrevendo, mais ainda me deparo
Sem acentuar nem til nem agudo
Sem mesmo negar, ou mesmo cedilhar
Com acentos podados ao talo pelos dentes ansiosos
Coitados dos dedos acentuados, coitados...

Acentos mastigados, dilacerados
Na poesia fugidia sem escapar da forma
Nem vista nem delineada por qualquer
Aquarelista escritor das cores sem som
Assim seguimos a vida... assim...

O que pode haver de errado no dito?
Nem quero mais interrogar o nada
Ignorarei o pontuar textual excessivamente

Quem sabe assim termine o laborioso dizer
O abstrato desmundo das palavras...

Inventemos agora um silenciador para o silencio.

Rodrigo Barbosa Silva

sábado, 27 de novembro de 2010

Abrupto silêncio

E de repente repetiu-se a sina do silente

Calado ao som do caldo de galinha...

Borbulhante esperança faminta da gente

Que quer mais que mera boquinha


Vazio, vazio, vazio desesperador

E a guerra continua, e o poder, onde?

Relativo é tal sinal perante a dor

De quem perde seu porto seguro ou sua ponte


Em meio a tantos gritos surge o alívio

O mais falso de todos, assaz restante

Sobrador que assopra o vento imaginário

Que sobrou ontem quando tinha Sol


O medo afirma nossa nova paranóia

A mais real de todas, mais presente

Que o próprio presente não dado

Aos sedentos por fome satisfeita


À mesa estão os maratonistas corredores

Da diária luta por sobrevivência neste “nada

Tem sentido” o calor mais coadjuvante

Deste frio que impera nos maiores corações?


Matem, matem, matem aquilo que não existe

Para ver se o que se insiste se consiga sem saber

Mesmo que a concessão seja mais que mentir

Mesmo que a vida nos ensine a sorrir sem sonhar


Além disso a coitada criança cresce sem saber

Que cresce sem saber na sabedoria popular

Mais impopular que tudo que se possa imaginar


Mal sabe tal infante que o tempo ainda nem chegou

E o mais abrupto silêncio hoje grita em cada esquina

Sabe nem do passo mal andado que a luz não ilumina

Nem da fronte guerrilheira que agoniza por um quê

Sem um quê nem por quê num objetivo sem palavras...


Quem sabe a respiração possa ser o alento do jogado

Pelos cantos mais cansados das vielas desnortistas

Quem sabe a linguagem invisível possa ser a fuga

Daquele que não foge por não ter onde fugir

Que a vida nos conte um dia como se faz para falar.


Rodrigo Barbosa Silva